(do Terra) O presidente da Câmara Federal,
Marco Maia (PT-RS), disse nesta
terça-feira que está "estupefato"
com as denúncias de tráfico de
influência envolvendo o senador
Demóstenes Torres (DEM-GO) e o
contraventor Carlinhos Cachoeira,
preso pela Polícia Federal sob
acusação de explorar jogos ilegais
em Goiás. Maia disse já ter pedido
dados ao procurador-geral da
República, Roberto Gurgel, para
decidir a melhor providência a
tomar. Ele não descartou a abertura
de investigações pelo Conselho de
Ética e pela Corregedoria da Câmara
nem a instalação de uma Comissão
Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre
o caso.
Demóstenes pediu hoje a desfiliação
do seu partido para evitar um
processo de expulsão. Se por um
lado o desligamento partidário de
Demóstenes ofereceu ao DEM a
possibilidade de virar uma página
da crise, por outro, a batalha em
torno das denúncias de crimes e
quebras de decoro parlamentar
parece apenas ter começado, com a
crise instalada desde a divulgação
de sociedades entre parlamentares
e empresários que burlavam a lei.
"O mais difícil Demóstenes já
conseguiu fazer, que foi enganar
tanta gente por tanto tempo",
declarou nesta tarde o líder do PT
no Senado, Walter Pinheiro (PT-BA).
"O senador Demóstenes mentiu em
Plenário, e isso por si já é quebrar o
decoro, já é cassação", disse
Pinheiro, acrescentando que o PT
vai trabalhar para evitar que a
apuração fique restrita ao decoro.
Ele ressaltou a importância de a
Corregedoria da casa, hoje exercida
pelo senador Vital do Rego (PMDB-
PR), reunir todo o conteúdo dos
processos de investigação para
apurar detalhes sobre o caso.
"Quem se beneficiava? Quem
corrompia e quem era
corrompido?", questionou Pinheiro
sobre a relação entre Demóstenes e
Cachoeira.
"Não parece razoável que o senador
tenha se envolvido da maneira
como se envolveu com uma figura
carimbada da contravenção", disse
Maia. O presidente da Câmara se
reuniu com deputados do Psol e
representantes da Frente
Parlamentar de Combate à
Corrupção, que pediram à
Corregedoria da Câmara que
investigue os deputados Carlos
Alberto Leréia (PSDB-GO) e Sandes
Júnior (PP-GO), que também
aparecem em gravações com
Cachoeira. O Psol deverá
representar contra Sandes Júnior e
Leréia no Conselho de Ética e
Decoro Parlamentar.
"Vamos olhar as investigações para
termos condições de definir o que
será necessário, se uma CPI,
Conselho de Ética ou outros", disse
Maia, enfatizando que a
Corregedoria "pode e deve" ser o
primeiro caminho para a Câmara
analisar as possíveis irregularidades.
Demóstenes e Carlinhos Cachoeira
Em 6 de março de 2012, o senador
Demóstenes Torres (DEM-GO) subiu
à tribuna para dar explicações sobre
as denúncias de sua proximidade
com o bicheiro Carlos Augusto
Ramos, o Carlinhos Cachoeira,
descoberta pela operação Monte
Carlo, da Polícia Federal, que
terminou em fevereiro, com a prisão
de Cachoeira e de outras 34
pessoas. Demóstenes disse que a
violação do seu sigilo telefônico não
havia obedecido critérios legais. Dez
dias depois, o jornal Folha de
S.Paulo publicava um relatório do
Ministério Público Federal (MPF) que
indicava que o grupo comandado
por Cachoeira entregou telefones
antigrampos para políticos, entre
eles Demóstenes, que admitiu ter
recebido o aparelho.
O jornal O Globo noticiou, em 23 de
março, gravações da PF que
flagraram Demóstenes pedindo
para Cachoeira lhe pagar R$ 3 mil
em despesas com táxi-aéreo e
vazando informações sobre
reuniões reservadas que manteve
com representantes dos três
Poderes. Em 27 de março,
Demóstenes pediu afastamento da
liderança do DEM no Senado para
"acompanhar a evolução dos fatos".
No dia seguinte, o Psol entrou com
representação contra o parlamentar
no Conselho de Ética do Senado e,
um dia depois, em 29 de março, o
ministro do Supremo Tribunal
Federal (STF) Ricardo Lewandovski
autorizou a quebra do sigilo
bancário de Demóstenes,
solicitando ainda um levantamento
sobre as emendas e os projetos
relatados por ele para saber se
Cachoeira, acusado de controlar a
máfia dos caça-níqueis e de
corromper policiais e políticos em
Goiás, foi beneficiado.
Nas gravações, Demóstenes
também aparece acertando um
suposto lobby pela legalização dos
jogos de azar no Congresso em
2009. Em outra conversa, Cachoeira
pede ajuda no processo de um
delegado e três policiais de Anápolis
(GO) acusados de tortura e
extorsão. Os dois ainda
conversaram sobre um "negócio"
milionário na Infraero. Na ocasião,
Demóstenes teria se valido da
relatoria da CPI do Apagão Aéreo
para levantar informações e sondar
contratos de informática na estatal.
O presidente do DEM, senador José
Agripino Maia (RN), anunciou em 2
de abril que o partido decidiu abrir
um processo que pode resultar na
expulsão de Demóstenes. Conforme
a nota, "houve desvio reiterado do
programa partidário, principalmente
no que diz respeito à ética".


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