Farc libertam dez reféns de uma só vez

(do Terra) BOGOTÁ - Os dez reféns que viviam há mais tempo
sob poder das Farc (Forças Armadas
Revolucionárias da Colômbia) foram libertados
nesta segunda-feira, em uma operação executada
por militares brasileiros, na selva colombiana.

Os dez reféns já estão seguindo ao encontro de
suas respectivas famílias, que os esperam no
aeroporto de Villavicencio, capital do Departamento
(Província) de Meta, no centro do país.
A libertação, considerada por analistas
colombianos como sinal de debilidade do grupo e
um considerável gesto de boa vontade em favor da
paz, foi realizada de uma só vez e surpreendeu a
todos, já que, inicialmente, o resgate dos dez
sequestrados seria realizado em duas etapas.
Com isso ganharam a liberdade os policiais e
militares César Augusto Masso, Luiz Antonio
Beltrán, Carlos José Duarte, Jorge Romero Romero,
Jorge Trujillo Solarte, José Libardo Forero, Luis
Arturo Arcia, Robinson Salcedo Guarín, Wilson
Rojas Medina e Luis Alfredo Moreno. A maioria
deles com 14 ou 13 anos de cativeiro (sequestrados
em 1998 e 1999).
A guerrilha levou os reféns até as coordenadas
combinadas na selva colombiana, próxima a
cidade de Mapiripán (Departamento de Meta).
Depois do primeiro encontro com familiares (filhos,
pais e esposas), em Villavicencio, os oficiais
libertados partirão para Bogotá, em um avião da
Força Aérea Colombiana, com os familiares. Na
capital, eles serão recebidos na base aérea de
Bogotá.
O resgate aconteceu no mesmo Departamento
onde, na semana passada, o Exército colombiano
matou 36 guerrilheiros (seis deles, comandantes de
frentes), depois de uma operação militar.
Missão
A operação teve a participação do Exército
brasileiro, que cedeu dois helicópteros e 22
homens para a missão. Funcionários da Cruz
Vermelha Colombiana e a ex-senadora Piedad
Córdoba, presidente da ONG Colombianos por la
Paz e interlocutora das Farc, participaram do
resgate.
É a quarta vez que o governo brasileiro colabora
com liberação de reféns das Farc. Em Villavicencio,
a Cruz Vermelha entregou oficialmente os
resgatados aos familiares e a dois oficiais do
Exército.
Somente os oficiais brasileiros, que conduziram a
aeronave, dois integrantes do Comitê Internacional
da Cruz Vermelha, dois generais (um da Polícia e
outro do Exército da Colômbia), além de Piedad
Córdoba e a diretora da Casa da Mulher de Bogotá,
Olga Amparo, viajaram até o local do resgate, na
selva colombiana.
Devido ao mau tempo, os helicópteros demoram
cerca de duas horas para sair de Villavicencio em
direção ao local do resgate. Mas depois disso,
segundo a Cruz Vermelha, tudo aconteceu dentro
do previsto e no meio da tarde os oficiais já
estavam com a comitiva da missão humanitária.
A operação começou no domingo, quando os
helicópteros do Exército brasileiro decolaram de
São Gabriel da Cachoeira (AM) em direção a
Villavicencio. As operações militares do governo
colombiano foram então suspensas na região,
cumprindo os protocolos de segurança. O cessar-
fogo permanece em vigor até às 6 da manhã desta
terça-feira.
Segundo fontes do Exército colombiano, os reféns
vieram de diferentes regiões de país, já que nos
últimos tempos as Farc haviam optado por deixá-
los sob responsabilidade de frentes diferentes. O
deslocamento de alguns desses reféns começou há
pelo menos dois meses, para que eles pudessem
chegar a tempo até o local do resgate.
Expectativa
Familiares, políticos e ONGs, além da imprensa local
e internacional, concentraram-se em Villavicencio.
Na noite de domingo foi realizada uma missa na
catedral da cidade.
Enquanto os familiares esperavam para
reencontrá-los em liberdade, os oficiais libertados
também foram "preparados" para o encontro.
A Cruz Vermelha informou que levou fotos recentes
das famílias para que eles pudessem, já no
helicóptero, ter uma visão "atualizada" de seus
parentes antes de vê-los de novo.
É o caso também do tenente Wilson Rojas Medina.
A filha dele, Natalia Rojas, agora com 17 anos, tinha
apenas 4 anos de idade quando o oficial foi
capturado. Nas redes sociais, a adolescente
mobilizava os amigos e pediu "orações" para que
tudo corresse bem.
Além de médicos, o governo colombiano também
colocou a postos, na cidade de Villavicencio,
psicólogos que estão disponíveis para qualquer
problema dos recém-libertados.
Negociações
Com a liberação dos últimos reféns militares e
policiais, cresce a pressão para que o governo
colombiano reconheça a libertação unilateral dos
colombianos como um "gesto de paz".
A ex-senadora Piedad Córdoba e o ex-presidente
Ernesto Samper pediram em Villavicencio que o
presidente Juan Manuel Santos se manifeste e
reconheça o gesto das Farc como ato de boa
vontade.
Acadêmicos e ONGs estudiosas do conflito também
pressionam o governo, pedindo maior "abertura"
para o diálogo a partir de agora.
Para analistas, este é um momento também para
que a guerrilha possa se pronunciar e "dar mais
um passo" em direção ao diálogo, trocando
gradualmente a política de guerra por uma política
de paz.
O analista da Corporación Nuevo Arco-Íris, Ariel
Ávila, estudioso do conflito armado colombiano,
disse à BBC Brasil que vê a libertação como um
"gesto contundente" das Farc no sentido de querer
dialogar.
"Com certeza as Farc vão cobrar do governo agora,
que sempre dizia que não via vontade de paz na
guerrilha", diz Ávila.
"Claro que o governo não responderá rapidamente
com um chamado à paz, mas vivemos um
momento em que os dois lados parecem querer
caminhar para isso", afirmou.
Reféns civis
Uma das revindicações pendentes do lado da
guerrilha é a visita aos presos das Farc.
A ex-senadora Piedad Córdoba e um grupo de
mulheres, dentre elas a brasileira Socorro Gomes,
presidente do Conselho Mundial pela Paz, esperam
permissão do governo colombiano para visitarem
os presídios do país.
Por outro lado, as Farc também são pressionadas
para que se manifestem sobre os sequestrados
civis. Os números são controversos, mas segundo
a ONG País Libre existem 405 civis sequestrados
pelas Farc, dos quais não se tem notícia.
ONGs e parentes desses sequestrados
aproveitaram a ocasião da liberação dos
prisioneiros militares para pedir que os civis não
sejam esquecidos e que a guerrilha apresente uma
lista com nomes daqueles que possam estar em
seu poder ou que informem o local onde foram
mortos e enterrados. BBC Brasil - Todos os direitos
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