(do GE) Tamanho pode até não ser
documento, mas quem impõe respeito ,
impõe. Que o diga Fábio Santos. Com
2 ,04m de altura, o jogador do Caxias
(RS ) optou pelo esporte como forma
de ganhar a vida. A estatura faria dele
uma grande promessa para equipes
de vôlei ou basquete, mas a opção foi
pelo caminho mais improvável : o
futebol . E se , aos 30 anos , a carreira
não é marcada por passagens em
grandes clubes ou conquistas , um
título ninguém tira desse fluminense
de Itaboraí: o de zagueiro mais alto do
Brasil .
Fábio Santos , de 2 ,04 m, brinca com
pequenino Pantico , de 1, 63m, em
treino.
Revelado pelo América e com breve
passagem pelo Vasco, em 2002 , antes
de rodar o Oriente Médio por sete
anos até chegar ao clube de Caxias do
Sul , ele foi perseverante na infância
para ter a bola nos pés e não nas
mãos e de cor laranja . Acostumado a
ser o maior da turma desde pequeno ,
o Bambu , ou Vareta , como era
chamado, era alvo da cobiça de
treinadores de basquete, esporte que
nunca o seduziu.
Já tentaram me levar para o basquete
quando eu tinha uns 14 anos , mas
não tinha como. Nunca levei jeito para
isso. Nem tentei. Gosto mesmo é do
futebol "
Fábio Santos , zagueiro do Caxias ( RS)
- Já tentaram me levar para o basquete
quando eu tinha uns 14 anos , mas
não tinha como. Nunca levei jeito para
isso. Nem tentei. Gosto mesmo é do
futebol . Já cogitaram me usar no gol ,
mas nunca aconteceu . Comecei com
12 anos em uma escolinha em São
Gonçalo e estou aí .
Sem jeito para ser goleiro , a função de
defensor era o caminho natural para
o jovem que sonhava com o mundo
da bola. Na trajetória , no entanto, a
altura nem sempre foi uma aliada.
Cada vez mais distante dos amigos nas
avaliações anuais, Fábio Santos temeu
não parar de crescer , mas hoje
agradece os 2 ,04m, medidos
cuidadosamente na chegada ao Caxias
(quando veio do Linense (SP) , seu
último clube , a ficha técnica apontava
2 ,02m) .
- Quando tinha uns 18, 19 anos , já
estava crescendo mais e pensava :
“Poxa , será que vou até aonde ? Já está
demais !” (risos ). Tinha quase dois
metros e meus amigos eram
baixinhos. Mas depois valeu a pena.
Em campo , a estatura torna o jogador
uma barreira quase intransponível nas
bolas aéreas , conforme ele mesmo
garante. Há, por outro lado , os
malefícios. Sem tanta agilidade por
motivos óbvios , Fábio Santos admite
que sofre diante de jogadores mais
baixos e a atenção tem que ser
sempre redobrada .
- É uma estatura grande para jogador
de futebol , né ? Por um lado é bom ,
ajuda nas bolas aéreas, mas por outro
acabo encontrando dificuldades com
jogadores mais rápidos . É importante
ficar ligado, porque complica . O
baixinho é sempre mais veloz ( risos) .
Se não ficar esperto, não dá para
chegar .
Encarar a “ torre ” de 2 ,04m, entretanto ,
não é uma missão das mais fáceis. Se
a mobilidade pesa contra o gigante do
Caxias do Sul, o visual muitas vezes
intimida adversários, que acabam
evitando o duelo.
- Sempre um ou outro adversário se
espanta e fala que sou alto demais .
Rola aquela resenha. Tenho que tirar
proveito disso . Acabo ajudando na
defesa , me imponho . Se perder na
bola aérea com essa altura é
complicado. Não pode . Pelo alto, eu
me garanto.
Chuteiras número 47 têm que ser
importadas.
Acostumado a contornar as situações
inusitadas em campo, Fábio Santos
revela que no dia a dia a estatura o
coloca muitas vezes em algumas saias-
justas. Seja no período em que viveu
no Oriente Médio (defendeu clubes do
Qatar, Líbano e Síria) ou em
momentos comuns ao dia a dia de um
jogador de futebol , é necessário ter
jogo de cintura para evitar
constrangimentos .
- Lá fora o pessoal é mais baixo ainda.
Então, onde chegava todo mundo
olhava , ficava assustado . Mas com o
tempo ficava tranquilo . O pior é em
viagem de avião . É muito apertadinho.
Quando o time vai de ônibus , pego
sempre duas cadeiras e vou com a
perna esticada , de lado .
Outra dificuldade encontrada por
Fábio Santos em comparação a
companheiros com estatura “ normal ”
é para encontrar material . Calçando
número 47, o zagueiro não acha
chuteiras para comprar no Brasil e
encomenda ao cunhado , que vive na
Inglaterra. Todos os empecilhos, no
entanto, são encarados com bom
humor pelo defensor que, mesmo aos
30 anos, não se priva do direito de
sonhar .
- O ser humano vive de sonhos.
Depois de tanto tempo lá fora, estou
tendo um recomeço. O Caxias é uma
boa vitrine e tenho, sim , o desejo de
ainda defender um grande .
E Fábio Santos ganhou um aliado
nessa caminhada . Ex- zagueiro de
Inter , Santos e Palmeiras, Argel
assumiu o comando do Caxias no
início da semana e promete lapidar o
gigante para potencializar sua
principal virtude : a estatura .
- O perfil do zagueiro brasileiro
mudou muito nos últimos anos .
Antigamente , era comum nomes de
1 ,80m. Ricardo Rocha , Antônio Carlos,
Célio Silva, não eram muito altos. Hoje
em dia é preciso ter , no mínimo,
1 ,90m. Mas não adianta ter só altura .
Não dá para ter dois metros e ser
lento . É preciso unir isso com a
mobilidade, velocidade, tempo de
bola, impulsão . Esse é o perfil que o
futebol mundial procura. É preciso
aliar tudo isso , ter um equilíbrio. O
Fábio é forte , vigoroso , bom nas bolas
aéreas , assusta, impõe respeito , mas
precisa melhorar a velocidade .
E assim, com um bom professor e sem
limites para sonhar , Fábio Santos
entra em campo neste domingo para
defender o Caxias diante do Joinville
(SC ), pela Série C do Brasileirão , mas,
principalmente, para mostrar que se
tamanho não é documento, pode
abrir portas quando bem utilizado .


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