Após um mês, vítimas da chuva em Teresópolis reclamam de abrigos

O temporal mais recente causou cinco mortes na cidade serrana. Foto: Roberto Ferreira/Divulgação
(do Terra) Temporais que resultam em deslizamentos com vítimas fatais e desabrigados se tornaram uma triste rotina no passado recente de Teresópolis, cidade da Região Serrana do Rio de Janeiro, situada a 90 km da capital. Passado um mês da tragédia mais recente, que deixou cinco mortos na cidade, moradores que perderam tudo com as chuvas reclamam das condições dos abrigos temporários. Com 31% dos moradores vivendo em favelas, sendo a maior parte delas situadas em encostas, segundo dados do Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Teresópolis tem um dos maiores índices de favelização do Rio. Estima-se que algo em torno de 10 mil pessoas ainda vivam em áreas sujeitas a deslizamentos. A combinação de fortes chuvas e a ocupação desordenada de encostas resultou em cerca de 500 mortos nos últimos 20 anos, e centenas de desaparecidos. A maior parte dessa estatística é oriunda das fortes chuvas que atingiram a Região Serrana em janeiro de 2011, que mataram, segundo a prefeitura, 372 pessoas no município. O último temporal, ocorrido há um mês, no dia 6 de abril, matou mais cinco moradores da cidade. Até hoje, Teresópolis ainda registra 179 pessoas desabrigadas (que tiveram de deixar suas casas e foram levadas a abrigos públicos) e outras 2.512 desalojadas (acomodadas em casas de amigos e familiares), a maior parte das comunidades do Perpétuo, Rosário e Santa Cecília. Em um dos dois abrigos, no CIEP Professor Sebastião Mello, no bairro Rosário, sobram reclamações em relação às condições do local. Desabrigados que permanecem ali dizem que falta alimentação adequada e segurança. Na semana passada, fizeram protesto em frente ao colégio para pedir melhores condições de acomodação. "Temos alimentação, nos dão almoço, lanche. Mas falta muita coisa, como leite para as crianças. E não temos segurança à noite, qualquer um pode entrar aqui", reclama a dona de casa Maria José Gama, que diz ter ficado desabrigada nas chuvas de 2011. Drama se repete Para a maior parte das pessoas afetadas no temporal de abril, o drama não é novo. Parece mais um capítulo de uma novela interminável e sem solução. Entre os desabrigados está a diarista Maria de Fátima Oliveira, cuja casa no morro do Perpétuo é uma das 628 interditadas pela Defesa Civil desde a chuva. Ele foi transferida recentemente para o abrigo instalado no prédio anexo da Apae de Teresópolis, e conta que o drama de não poder voltar para casa não é novidade para ela. "Toda chuva forte é esse problema. Fiquei sem poder ir pra casa na chuva de 2009, de 2011, e agora. Uma coisa é certa: não volto para casa mais, está muito perigoso. Mas não poderei viver em abrigo para sempre", afirma ela, que já deu entrada na documentação para receber o aluguel social de R$ 500, e aguarda aprovação do pleito. Junto a ela, o auxiliar de pedreiro Randolfo de Paula da Silva reclama que não recebe a devida atenção das autoridades. Segundo ele, nas chuvas do ano passado, foi prometida indenização ou uma nova casa a quem tinha perdido tudo na enxurrada que devastou a cidade. Ele alega que nem mesmo o aluguel social ele passou a receber. "Tive que ficar em abrigos, e depois acabei voltando para casa. O que nós vamos fazer? Não temos dinheiro para ir a um lugar seguro. É colocar na mão de Deus", afirma. Desabrigados invadem casas À espera da remoção de locais em áreas de risco, um grupo de desabrigados decidiu invadir 27 casas populares incompletas no bairro de Fonte Santa, em Teresópolis. As residências foram erguidas pelo governo estadual e estão prometidas para pessoas que foram afetados por temporais que atingiram a cidade em 2002. Com quarto, sala, cozinha e banheiro, ficam próximas à rodovia Rio-Bahia. As residências estão praticamente prontas, mas, de acordo com a Companhia Estadual e Habitação (Cehab), ainda precisam ter a rede de esgoto conectada pela prefeitura para que sejam ocupadas oficialmente. Ainda segundo a Cehab, a prefeitura informou que precisou interromper momentaneamente as obras de ligação da rede de esgoto para atender às demandas provocadas pelas chuvas mais recentes. A alegação é que foi preciso fazer uso do maquinário que estava no canteiro de Fonte Santa. Uma das famílias que invadiram as residências foi a da dona de casa Ana Cristina da Silva Faria, mãe de quatro filhos que teve de abandonar sua casa no morro do Perpétuo. "Estava em risco, minha casa está com rachaduras. Estava sem lugar para ficar. Em abrigo não queria, fica todo mundo amontoado. Não dava para esperar. O tempo começava a fechar, e dava um desespero. As crianças começavam a chorar, o que eu ia fazer?", argumenta. "Somos pobres e não temos como pagar caro para ficar num lugar seguro. Minha solução, quando chovia, era trancar a porta de casa e ir para o meio da rua", explica. Obras da prefeitura em situação de risco No bairro Fischer, uma situação inusitada intriga a população vizinha ao terreno onde a prefeitura construiu 50 casas populares, que agora passam por obras de contenção. As unidades foram entregues em 2006, mas algumas delas estão em situação de risco. As obras de correção estão sendo feitas com recursos do governo federal. Paralelo a isso, as casas não parecem atrair interessados. Algumas delas estão vazias, e alguns moradores que estão por lá invadiram as unidades. Boa parte dos moradores que receberam as casas há alguns anos deixou o local, queixando-se de falta de infraestrutura. As ruas não são asfaltadas, o acesso é difícil, faltam escolas, atendimento médico, comércio e, principalmente, transporte público. "O ônibus não vem até aqui, e o que chega até mais perto não vem depois das 21h. No que eu puder arrumar um outro lugar, saio daqui correndo", afirma Fábia Monteiro, que está desempregada. A prefeitura informou que tem como meta investir na recuperação das unidades habitacionais que estão destruídas logo após a conclusão das obras de contenção de encostas que estão em andamento. Instabilidade política A caótica situação da cidade, agravada pelas chuvas, ocorre em meio à conturbada vida política nos últimos anos. Sete meses após a tragédia que matou centenas de moradores, o prefeito Jorge Mário Sedlacek foi afastado do cargo pela Câmara dos Vereadores. Sobre ele recaía, entre outras acusações, a de desviar recursos federais que foram destinados ao município após a grande tragédia que se abateu sobre Teresópolis. Dois dias após assumir, o vice-prefeito Roberto Pinto morreu de infarto. Desde o fim do ano passado, a cidade vem sendo governada pelo presidente da Câmara Municipal, Arlei de Oliveira Rosa. No mês passado, logo após as chuvas, ele já enfrentou uma grande polêmica. A prefeitura abriu licitação de pouco mais de R$ 1 milhão para a contratação de coquetéis e coffee breaks a serem servidos pelas secretarias municipais. Diante da repercussão negativa da medida, a prefeitura decidiu cancelar o ato.
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