Foco das discussões sobre Grécia muda para longo prazo, dizem fontes

(do Estadão) BRUXELAS - As discussões entre dirigentes de bancos e representantes dos governos europeus sobre a Grécia mudaram de foco nos últimos dias, para ideias de como reduzir o peso da dívida do país, ao invés de focalizar apenas maneiras de evitar uma crise financeira no curto prazo, disseram pessoas próximas às conversações.

As discussões começaram há duas semanas, quando os bancos franceses fizeram propostas com o objetivo de encorajar os investidores a contribuírem para um novo programa de ajuda reinvestindo os recursos obtidos com o vencimento dos bônus que vencerem ao longo dos próximos três anos.

Agora, as conversas têm incluído maneiras pelas quais a Grécia poderá se aproveitar de descontos fortes no valor de face de seus bônus para reduzir sua dívida de € 350 bilhões. Uma fonte envolvida nas discussões disse que as conversações sobre redução da dívida grega são "potencialmente transformacionais".

As discussões vão prosseguir na próxima segunda-feira, numa reunião dos ministros das Finanças dos 17 países da zona do euro em Bruxelas. Entre as opções que deverão ser discutidas está o uso dos fundos europeus de ajuda à Grécia para financiar compras de bônus gregos.

As fontes ressalvaram que há poucos sinais de convergência entre os governos europeus sobre como lidar com a dívida da Grécia, e se vale a pena arriscar que as agências de classificação de risco declarem um default grego. Nenhuma decisão final é esperada para a segunda-feira e, segundo as fontes, as conversas sobre isso deverão se estender até setembro.

Um alto funcionário da zona do euro disse que será discutida a possibilidade de permitir que o Programa Europeu de Estabilidade Financeira para financiar direta ou indiretamente compras de bônus gregos com descontos em relação aos valores de face. No começo do ano, essa proposta havia sido vetada por alguns governos europeus, liderados por Alemanha e Holanda.

O funcionário disse que também poderá ser discutida a possibilidade de compras diretas de bônus gregos pelo Banco Central Europeu (BCE), que já tem dezenas de bilhões de euros em bônus gregos em sua carteira.

Outra fonte disse que também está sendo discutida a possibilidade de os fundos soberanos serem compradores potenciais de bônus gregos com desconto. Outra ideia seria promover trocas de bônus com redução do total da dívida, à semelhança do Plano Brady, aplicado nos anos 1980 n
a América Latina.

Nesta quinta-feira, representantes do Instituto de Finanças Internacionais (IFI), que agrupa mais de 400 instituições financeiras de todo o mundo, reuniram-se em Roma com outros investidores para discutir a questão da dívida grega com funcionários europeus, entre eles Vittorio Grilli, que preside um importante comitê de finanças da zona do euro. Outra reunião semelhante havia acontecido na quarta-feira em Paris.

Nesta sexta, o diretor-gerente do IFI, Charles Dallara, disse que as discussões estão fazendo "progressos significativos" e se ampliando para além das propostas para tratar da dívida grega que vence nos próximos três anos. "Acho que estamos fazendo um progresso significativo na direção de reorientar a maneira de tratar da dívida da Grécia. Estamos explorando um leque mais amplo de opções, que trataria não apenas das necessidades de fluxo de caixa no curto prazo, mas também examinaria uma variedade de técnicas para a redução do estoque da dívida", afirmou Dallara em entrevista pelo telefone.

Na quinta-feira, o ministro das Finanças da Holanda, Jan Kees de Jager, disse que uma rolagem voluntária da dívida grega não é realista, e que um reescalonamento teria de ser forçado. Outros funcionários europeus disseram que as propostas de encorajar os detentores de bônus gregos a reinvestir os recursos obtidos no vencimento de títulos ao longo dos próximos três anos provavelmente cobririam metade, ou menos, da meta de € 30 bilhões estabelecida pelos governos da zona do euro.

"Acho que teremos de aceitar que uma contribuição voluntária não é realista. Se uma contribuição forçada dos bancos resultar num evento isolado de rating um rebaixamento, isso não será um desastre. De qualquer maneira, a Grécia não está atualmente nos mercados de capital, e não estará por algum tempo", disse De Jager.

Dallara, por sua vez, declarou durante a semana que um default seletivo (uma avaliação das agências de rating de que uma determinada transação prejudicaria os investidores) não teria, necessariamente, consequências graves.

Altos funcionários do governo alemão sugeriram a possibilidade de um swap de bônus; para eles, mesmo que uma rolagem de dívida, ainda que modesta, leve as agências a declararem um default seletivo, os governos poderão ser mais agressivos ao tentar assegurar contribuições do setor privado.

Os funcionários ressalvaram que os governos de economias fracas, tais como Portugal, Espanha e Itália, não querem arriscar a possibilidade de um contágio e um distanciamento ainda maior dos investidores de seus países. Na quinta-feira, o presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, reiterou fortemente sua oposição a qualquer proposta que provoque uma declaração de default ou de default seletivo.

"Nossa posição é clara: nenhum evento de crédito, nenhum default seletivo e nenhum default. Não se pode ter a expectativa de que alguma forma de envolvimento do setor privado seja um acontecimento normal", disse Trichet.
Categorias:

0 comentários